sábado, 2 de abril de 2016

O VALOR DO AXÉ

O VALOR DO AXÉ

              Tenho visto nos últimos dias vários debates sobre o dito valor do axé, traduzindo em palavras simples o quanto um babalorixá/iyalorixa de batuque deve cobrar para se fazer algo dentro do culto....
                Vejo argumentos de ambos os lado dos que defendem a cobrança e dos que defendem a gratuidade dos serviços prestados (ou como alguns chamam "caridade"), porem vivemos em uma sociedade monetária onde quase não existe escambo (no qual era possível trocar  um produto ou serviço por outro) e é um fato que um ilê (casa de axé) não se constrói nem se mantém apenas com a fé.
                Dos gastos de um Ilê temos desde materiais de cozinha (panelas, facas, colheres, pratos) para a preparação dos alimentos bem como para servir os mesmos; materiais de manutenção do Ilê (material de limpeza, toalhas, panos de prato, tinta etc.), afinal todos gostam de estar em um ambiente limpo, estruturado e por que não dizer bonito; e o próprio material de uso religioso como mel, dendê, vela, Alá, alguidar, gamela dentre vários outros elementos que poderia citar incansavelmente aqui. E de onde sai o DINHEIRO para tais itens e materiais se o dono do Ilê tem a possibilidade de arcar com tudo sozinho e não cobrar nada? Excelente, não tem nada de errado nisso. Mas todos sabem que a grande maioria de adeptos e sacerdotes vem de origem humilde e não dispõem de dinheiro sobrando para arcar com tudo sobre seus ombros.
                Nos orgulhamos em nos chamar de família religiosa e família inclui ajudar a construir. Manter um bom ambiente de convívio, inclusive material. Lembram quando moraram com seus pais e contribuíam com as contas da casa quando começaram a trabalhar? Bem o Ilê pode não ser a morada do iniciado, porém, no Ilê que fica seu assentamento e bori de Orixá ate que possa construir sua própria família e até lá sob o zelo e proteção do Baba/Iya.
                Mas como e quanto deve ser cobrado? Impossível estipular um valor, afinal são muitas as variáveis a serem consideradas desde a estrutura já existente até o numero de adeptos presentes no Ilê de forma que não há uma tabela padrão predefinida, bem como nem todos tem as mesmas condições de contribuir podendo até mesmo estar contribuindo com o próprio trabalho, auxiliando em outras funções dentro do Ilê. O importante é contribuir de alguma forma.
                O que pôde ser observado nos últimos anos é o crescente numero de sacerdotes que literalmente abusam dos seus adeptos para enriquecimento a base da fé, cobrando valores claramente absurdos para, e o que é pior, uso pessoal, fazendo com que enquanto seus filhos trabalham mês a mês para conquistar com suor seu salário, deixem boa parte de seus ganhos - que deveriam ser destinados  aos seus gastos pessoais - nas mãos do sacerdote que muitas vezes promete uma mudança milagrosa na vida do filho.
                Pois então, de qualquer sacerdote que prometa milagres e ainda cobre valores abusivos para tal, desconfie, pois isso não existe. Nada cai do céu ou é conquistado sem dedicação ou esforço, Orixá da o caminho, a escolha de seguir ou não é nossa.
                A fé não tem preço e o Orixá não precisa do seu dinheiro, mas um Ilê infelizmente não se mantém somente com fé.

                                                                                                                            Phil D’Agandju Ibedji
                                                                                                                                          Axé a todos

sexta-feira, 25 de março de 2016

CONDUTA DE VISITAÇÃO



Conduta de visitação


     Caros irmãos e irmãs o que nos faz sair em uma noite muito fria ou extremamente quente, e ir a um batuque?
     Vocês já se perguntaram qual a razão? Até onde tenho conhecimento é para reverenciar nossos amados orixás e compartilhar da felicidade dos irmãos de fé em obrigação.  Entretanto, o que vemos hoje em dia?
     Infelizmente, vemos o sagrado posto de lado e a falta de respeito com a casa e o anfitrião. De que modo vemos esse desrespeito se materializar? Para começar nas rodinhas que se formam no lado externo dos salões, nas famosas rodas de cigarro onde saem com a desculpa de fumar e se tornam os julgadores do axé. Onde tudo torna-se chacota, desde a marca dos refrigerantes oferecidos a qualidade dos doces, a decoração do salão e as roupas usadas pelo anfitrião e demais convidados. E esquecem do principal motivo por estarem naquele local numa noite muito fria ou extremamente quente. falam alto riem como se estivessem em uma festa a brasileira. Quando a boa conduta diz...
     Que primemos sempre  o toque e que devemos sair do salão durante os intervalos dos alagbes, evitarmos aglomeração e cochichos.
     Louvar e agradecer esse é o intuito de doarmos uma noite de sono, caso contrário não saia de sua casa.
     Aos olhos dos pais nada além de seu coração aberto em louvor importará.
     A conduta também pede que não nos ausentemos do toque antes do seu término ou pelo menos não antes da saída do ecó a não ser por motivo de força maior. Pipocar entre dois ou três batuques em uma só noite soa como uma busca desesperada por ascensão e aparecer em revistas do seguimento.
     De bom tom é sempre priorizar o objetivo principal dessa festa maravilhosa chamada BATUQUE onde agradecer aos ORIXÁS pela oportunidade de senti-los mais presente vale a pena uma noite de sono ser doada, afinal eles nos acompanham independente do que possamos oferecer-lhes
e se for para ser algoz e julgador por favor fique em casa dormindo.
                                                                                                     

                                                                                                              Anna bispo
                                                                                                         Nana da Demum

quinta-feira, 24 de março de 2016

Itan de Obá

A SOPA DE ORELHAS DE OBÁ


  Tal como Oxum e Yemanja, Obá é uma deusa aquática por natureza.
              Apesar de menos conhecida do que suas duas colegas, também tomou parte de algumas historias famosas, das quais esta que agora vamos narrar é, sem duvida, a mais famosa e divertida (desde que se admita  que perder uma orelha, por qualquer motivo, seja divertido).
Oba tem tal nome, porque é deusa do rio africano de mesmo nome. Seu primeiro amor foi Ogun, quem conheceu numa luta que travaram (a bela Obá tinha o habito de guerrear).
                Desta feita, porém, se dera mal e acabara não só derrotada pelo deus como violada por ele.
                O tempo passou, e Obá acabou sendo "roubada" de Ogun por Xangô - cujo esporte principal, além de guerrear e cuspir fogo, era de roubar esposas alheias-, passando a viver, desde então, em Oyó.
                Obá, entretanto, não era esposa única de Xangô. Quando ela chegou à cidade do novo esposo, Oxum, a deusa dos rios, já desfrutava da dignidade de ser a primeira esposa real.
                Daí em diante, foi só briga e desavença.
                Para evitar o excesso de atritos, Xangô regulou as atividades de cada uma delas, de tal modo que tivessem que cruzar o menos possível entre si.
                Era assim, por exemplo, que o maravilhoso privilegio de cozinhar para o rei fazia-se sempre em alternância: dia sim, dia não, cada qual preparava a comida de Xangô.
                 - Aquela que caprichar mais ganha um beijo! – dizia o deus, muito feliz do arranjo e de viver em uma época que as mulheres se prestavam a tal papel.
                Oxum, ciumentíssima do esposo, não podia admitir que a rival pudesse fazer pratos mais saborosos do que o seu, por isto, tratou logo de avacalhar com os dotes culinários da rival.
                Aproveitando-se de uma certa ingenuidade que ainda restava na jovem Obá, Oxum decidiu passar-lhe a conversa.
                -Obá, podemos ser rivais em tudo, menos em algo que prejudique a felicidade de nosso adorado esposo.
                Obá olhou para o rosto de Oxum e não enxergou nele malícia alguma (nem poderia, já que era parte essencial do plano de Oxum que sua rival não enxergasse traço algum de malícia em seu adorável rosto).
                - Ótimo - disse Oxum. – Preste, então, muita atenção: Algo que não podemos permitir jamais, é que a refeição de nosso esposo lhe desagrade. Isto seria ruim para ele e péssimo para nos duas.
                -É mesmo?
                -Claro. Você já viu Xangô processo por uma refeição mal feita?
                -Não.
                -Nem queira ver. Nesta hora, ele desanca quem estiver por perto!
                -Cruzes!
                -E quem não estiver por perto ele vai buscar e desanca do mesmo jeito.
                -Mas o que você propõe, afinal?
                -Proponho que façamos sua comida sempre da mesma e exata maneira.
                Aquilo pareceu perfeitamente razoável a segunda esposa.
                -De acordo –disse ela. –assim não terá motivo algum para odiar qualquer uma de nós duas.
                Como aquele fosse o dia de Oxum cozinhar, ela prontificou-se, então, a ensinar a Obá um segredo magnifico, capaz de tornar Xangô felicíssimo.
                -Você seria capas de revelar-me?
               -Sim. Mas não esqueça que faço isso não por afeição, mas por conveniência de nós duas. Vou preparar agora uma sopa de cogumelos capaz de arrancar lágrimas de prazer dos olhos do nosso adorado esposo.
                Logo, o panelão fumegava, enquanto dois enormes cogumelos saltitavam alegremente ao sabor da fervura.
                -Que belos cogumelos!Onde os arranjou?
                Oxum não respondeu, mas apenas balançou a cabeça significativamente.
                Obá não demorou muito a perceber que um lenço vermelho escondia as orelhas de Oxum.
                Assim que teve a certeza da origem dos tais cogumelos, Obá ficou branca e logo em seguida verde, e só não caiu desmaiada ao chão, por que a rival a amparou.
                -Que fricotes são estes? –disse ela, com uma grande risada.
                -São suas orelhas! –disse Obá, apontando para a panela.
                -Pode ter a certeza, disse a outra, embora não fossem suas orelhas coisíssima nenhuma.
                Assim que o prato ficou pronto, Oxum levou a tal sopa a Xangô, que deleitou-se enormemente.
              -Minha querida, hoje você realmente se superou! –disse ele, cobrindo a esposa de beijos. –é nestas horas que eu vejo que você é e sempre será a numero um!
                Obá, que acompanhava tudo escondida, mordeu os lábios de inveja e despeito.
                -Pois sim, amanha Xangô provará de minhas suculentas orelhas!
                No dia seguinte, Obá seguiu a risca o cardápio de Oxum: Depois de tomar uma faca afiadíssima, encomendou-se a todos os deuses e zás!, Cortou a orelha direita, e Zás!, Cortou a orelha esquerda.
                Um riu de sangue desceu pelo pescoço da pobre deusa, mas ela suportou tudo heroicamente, abafando o grito de dor num pano de prato.
                -Pronto! –disse ela, depois de estancar o sangue e enrolara cabeça em um pano escarlate, tal como oxum fizera. –Ao troco de duas pequenas dores, terei um gigantesco prazer!
                Obá viu suas duas orelhas mimosas rebolarem dentro da panela fervente, não sem alguma vaidade.
                -Que são mais belas que as de Oxum, nem se discute!
                Assim que sentiu macias o bastante, levou a sopa correndo para Xangô.
                -Sopa de cogumelos! –disse ela.
                -De novo? –exclamou Xangô, franzindo o cenho.
             -Vamos, prove! –disse Obá, com a certeza do triunfo! –Você pensa que já tomou uma sopa deliciosa de cogumelos, mas hoje vera o que é uma verdadeira e suculenta sopa!
                Animado pelo discurso, Xangô não esperou duas vezes para atirar-se a sopa.
                Entretanto, ao trincar a primeira das orelhas sentiu algo, de tão diferente na textura e no gosto que decidiu examinar melhor o tal cogumelo.
                -Pelo xaxará de Omolú! Uma orelha em meu prato!
                Obá no ultimo grau de vaidade, retirou ,então, o seu véu exibindo as duas feridas laterais.
                No mesmo instante, Xangô pôs-se a vomitar sob o prato.
                -Demônio! Maldita!
                Oxum, que acompanhava tudo escondida, surgiu de repente.
                - O que ouve? –disse ela, com o ar mais inocente do mundo.
                -Esta bruxa maldita serviu-me suas duas orelhas repelentes como alimento!
                A pobre Obá, sem saber o que dizer, apontou para a rival.
                -Fiz exatamente como ela, meu amado!
                Oxum, então, num lance teatral, retirou o lenço da cabeça deixando a mostra suas duas orelhas negras e luzidias.
                -O que esta dizendo, louca?
                Xangô, no entanto, percebeu que Oxum era tão culpada quanto à outra e expulsou ambas de casa. Oxum e Obá correram tanto para fugir a ira do esposo que, ao separarem-se, transformaram-se em dois caudalosos rios. Mas nem assim a rivalidade das duas se encerrou, pois no local onde a água dos rios se encontram ocorre um maremoto perpetuo.





Carmen Seganfredo/A.S Franchini. As melhores Historias da Mitologia Africana. Porto alegre: Artes e oficio, 2011. pp. 225-228.